A Morte do Demônio: Em Chamas vale a pena? Crítica completa

Alice em A Morte do Demônio: Em Chamas, cercada pelo caos na casa da família
Atenção: este texto contém spoilers leves da premissa do filme, mas não revela o final nem o conteúdo das cenas pós-créditos.

Esse é oficialmente o Evil Dead mais brutal já feito — tanto que o próprio diretor precisou cortar uma cena para conseguir liberar o filme nos Estados Unidos. E isso é motivo de comemoração para uns e problema para outros.

A Morte do Demônio: Em Chamas entrega o gore mais pesado da série até agora e aposta em um drama familiar sobre luto e relacionamento abusivo, mas tropeça na condução das cenas e em um roteiro que não consegue equilibrar as duas coisas. O saldo é positivo, ainda que divisivo.

Resposta rápida

A Morte do Demônio: Em Chamas acompanha Alice, que perde o marido em um acidente e vai até a casa isolada dos sogros logo depois do funeral. O reencontro familiar vira um pesadelo quando o mal guardado naquela casa é despertado e a família começa a se transformar em Deadites. O filme aposta em violência extrema e efeitos práticos impressionantes, mas gera discussão pela forma como amarra o drama de abuso ao terror e pelo uso de CGI na reta final.

Resumo rápido
Título:
A Morte do Demônio: Em Chamas (Evil Dead Burn)
Direção:
Sébastien Vaniček
Gênero:
Terror sobrenatural
Baseado em:
Universo Evil Dead, criado por Sam Raimi
Duração:
Cerca de 1h50
Classificação:
16 anos
Onde assistir:
Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 9 de julho de 2026
Cenas pós-créditos?
Sim, duas — a segunda é bem relevante para o futuro da franquia
Vale a pena?
Sim, principalmente para fãs de terror gore e da franquia
Nota:
3,5/5

Do que se trata o filme

Depois da morte trágica do marido em um acidente de carro nada natural, Alice se vê obrigada a passar uns dias com a família dele em um casarão isolado no interior. O luto já vinha carregado de segredos — o casamento não era o conto de fadas que todo mundo via de fora — e a reunião familiar descamba para o caos quando o mal guardado naquela casa é finalmente despertado. Não por acaso, mas por alguém de dentro da própria família. A partir daí, os parentes vão virando Deadites, um por um.

Conhecido internacionalmente como Evil Dead Burn, o longa é o mais novo capítulo da franquia criada por Sam Raimi nos anos 1980 e o terceiro da fase moderna iniciada em 2013. Assim como aconteceu com Fede Álvarez e Lee Cronin antes dele, o francês Sébastien Vaniček assume a direção sem depender de Bruce Campbell ou do Ash Williams clássico, e tenta imprimir sua própria marca em cima da mitologia do Necronomicon.

Quem é quem nessa família disfuncional

Antes de entrar na crítica em si, vale situar quem está em jogo nessa reunião familiar do inferno:

O elenco
A

Alice — Souheila Yacoub

A protagonista, viúva recente, que chega à casa da família do marido ainda processando o luto e os segredos do casamento.

W

Will — George Pullar

O marido morto de Alice, presente em flashbacks. É a peça que dá sentido a todo o tema de abuso do filme.

J

Joseph — Hunter Doohan

O cunhado. Por trás da figura aparentemente acolhedora está um homem obcecado pelo passado da própria família — e é essa obsessão que acaba despertando o mal dentro da casa.

S

Susan — Tandi Wright

A sogra, o centro da hostilidade que Alice enfrenta desde a chegada.

T

Thya — Luciane Buchanan

Alguém que tenta se encaixar naquele núcleo sem nunca pertencer de verdade — e que se torna um dos Deadites mais marcantes do longa.

E

Edgar — Erroll Shand

Tem uma presença ameaçadora mesmo antes do sobrenatural entrar em cena.

P

Polly — Maude Davey

A avó, que sofre de demência. O tratamento dado a ela é um dos pontos mais controversos do roteiro.

O gore mais pesado da franquia

Se tem um ponto em que praticamente todo mundo concorda, é este: A Morte do Demônio: Em Chamas é visualmente brutal. Os efeitos práticos e a maquiagem chegam a um nível de crueldade que supera os capítulos anteriores da saga, com desmembramentos, esmagamentos e situações que beiram o insuportável para quem é mais sensível.

O grande destaque é uma cena dentro de um carro, que transforma um espaço apertado em uma verdadeira câmara de tortura: retrovisor, encosto de banco e qualquer objeto ao alcance viram ferramenta de mutilação. A sequência já aparece nos trailers, então falar dela não estraga nada — e é o momento mais citado por quem saiu da sessão.

Vaniček também se diverte jogando com a expectativa do espectador. Ele identifica objetos cotidianos em cena, sugere silenciosamente como eles poderiam ser usados da forma mais tortuosa possível, e depois cumpre a promessa sem pudor. É o que separa um diretor que só quer chocar de um que entende ritmo visual.

Vale registrar também um plano mais prolongado em que a câmera acompanha o rastejo desesperado de Alice por um corredor, enquanto a mutilação acontece simultaneamente em vários cômodos ao fundo. Em vez de esconder tudo atrás de cortes picotados, o filme deixa a gente contemplar a dimensão do caos e entender como uma desgraça se conecta à seguinte.

"Em Chamas não quer te assustar. Quer te fazer desviar o olhar."

É melhor que A Morte do Demônio de 2013?

Essa é a comparação inevitável entre quem já é fã antigo. E aqui vai a resposta honesta: não, pelo menos não no quesito medo. A Morte do Demônio (2013) continua sendo o capítulo mais eficiente em criar tensão de verdade, com aquelas cenas de silêncio e sensação de presença que ficam na cabeça muito depois de acabar.

Em Chamas não tenta competir nesse terreno. Ele aposta todas as fichas na violência extrema, no exagero visual e em uma mitologia mais estratégica dos Deadites. É um filme diferente na proposta, não necessariamente pior, mas também não é o mais assustador da saga.

O drama familiar divide opiniões (e com razão)

Aqui está o maior racha entre quem assistiu, e vale apresentar os dois lados.

De um lado, há quem veja no filme uma metáfora bem construída: a família já estava possuída por um mal muito antes do sobrenatural entrar em cena, e a chegada literal dos demônios só potencializa o que já era tóxico dentro daquela casa. A cena em que todos estão sentados à mesa, ainda em luto, trocando farpas, é citada como um dos momentos mais tensos do longa — e não tem um único Deadite nela. E há um detalhe que reforça essa leitura: o mal não chega àquela casa por acidente. Ele é despertado por alguém de dentro, o que faz a tragédia parecer menos azar sobrenatural e mais consequência do que aquela família já era.

Do outro lado, há quem argumente que o roteiro não sustenta esse discurso. A dor real de Alice, o silenciamento imposto pela sogra e as lembranças da crueldade de Will são constantemente interrompidos por cabeças esmagadas e gente rastejando pelo teto, o que reduz o trauma a um gatilho para a próxima cena de violência.

E aqui vai nossa impressão: essa escolha funciona pela metade. O filme tem coragem de tocar num assunto pesado, mas parece ter medo de ficar parado tempo demais nele — como se sentisse que precisa se desculpar pelo silêncio dramático com mais uma cena de sangue. Dá para sentir a ambição, só que ela não teve espaço para respirar entre um ataque e outro.

Um elemento que também gera discussão é a subtrama da adaga, que puxa a narrativa para uma caçada por um objeto específico. Para uns, é o que dá identidade própria a este capítulo dentro da franquia. Para outros, é justamente o que mais afasta o filme do que Evil Dead sempre fez de melhor.

Os Deadites mais "pessoais" da franquia

Esse é, para a gente, o achado mais interessante do filme. Os demônios aqui não agem apenas como criaturas raivosas atacando por instinto. Eles observam as relações da família, reconhecem inseguranças antigas e usam esse conhecimento para ferir emocionalmente antes mesmo de partir para o ataque físico.

Na prática, uma relação abusiva se torna ainda mais controladora quando o Deadite assume o corpo de quem praticava o abuso. Uma frustração familiar vira acusação direta. Uma demonstração de afeto se converte em chantagem. É quase uma antiterapia conduzida por criaturas interessadas em transformar cada trauma em arma.

E isso conversa diretamente com o tema central: relações abusivas já são marcadas por esse embaralhamento entre afeto e violência, entre pedido de perdão e repetição do sofrimento. O Deadite só radicaliza o ciclo, usando o rosto de alguém conhecido para prometer amor enquanto prepara a próxima atrocidade.

O preço dessa escolha é que o filme perde parte da imprevisibilidade anárquica dos primeiros Evil Dead, quando o demônio parecia capaz de qualquer maluquice só porque achava divertido.

O que não funciona

O problema mais recorrente é a dificuldade do filme em estabelecer a geografia da casa. Em vários momentos, fica difícil entender de onde os personagens vêm, para onde estão indo ou o que exatamente estão olhando — uma desorientação que se repete até em cenas fora da residência, sugerindo que não é escolha proposital, mas falha mesmo de condução.

O humor, historicamente marca registrada de Evil Dead, existe aqui em doses raras, e algumas piadas se repetem vezes demais: funcionam nas duas primeiras aparições e cansam a partir da terceira. Diálogos expositivos na reta final também incomodam, principalmente uma fala específica perto do desfecho.

E há uma queixa que apareceu com força: a virada para o clímax troca parte da artesania dos efeitos práticos por um CGI visivelmente mais fraco. Quando um filme passa uma hora e meia provando que sabe fazer terror artesanal de verdade, qualquer atalho digital nos últimos vinte minutos fica mais evidente, não menos.

Sobre Alice, a atuação de Souheila Yacoub aposta no desconforto e na exaustão em vez da heroína expansiva e imediatamente cativante. Faz sentido para uma personagem tentando sobreviver a uma violência nova sem ter processado a anterior — mas o roteiro demora demais para tirá-la do lugar de vítima passiva.

Precisa assistir os outros filmes antes?

Não. A história de Alice é independente e funciona sozinha, exatamente como aconteceu com o filme de 2013 e com A Ascensão, de 2023. Você entende a premissa, a mitologia do Livro dos Mortos e o que está em jogo sem ter visto nenhum capítulo anterior.

Mas assistir A Morte do Demônio: A Ascensão (2023) muda bastante a experiência — não pela trama principal, e sim pela segunda cena pós-créditos, que só faz sentido completo para quem conhece aquele filme.

Tem cena pós-créditos?

Sim, duas. A primeira aparece logo após os créditos estilizados iniciais. A segunda vem depois da subida completa dos créditos, e é a mais importante: ela conecta este filme diretamente com A Morte do Demônio: A Ascensão de um jeito inédito na franquia, que até então funcionava quase como uma antologia de histórias independentes.

Essa conexão está gerando bastante discussão entre os fãs, porque levanta uma questão de continuidade que o próprio filme não explica. Vale ficar até o fim da sessão.

Vale a pena assistir no cinema?

Vale, sim — com um aviso. Se você procura o terror de tensão silenciosa e sustos bem construídos, este não é o filme. Mas se você gosta de gore explícito, efeitos práticos artesanais e um diretor disposto a ultrapassar limites de bom gosto, Em Chamas entrega exatamente o que promete, e entrega em escala maior do que qualquer capítulo anterior da saga.

É um filme dividido entre um drama familiar mal amarrado e uma encenação de carnificina extremamente competente. No fim das contas, o segundo pesa mais que o primeiro. E é bacana ver uma franquia que já foi dada como morta se renovando sem depender do Ash, do Bruce Campbell ou da nostalgia dos anos 1980.

3,5/5
Nota do Depois do Play
★★★
+
Ponto forte: Efeitos práticos e cenas de violência excepcionalmente bem coreografadas, com destaque para a sequência dentro do carro e para os Deadites mais psicológicos da franquia.
Ponto fraco: O drama sobre abuso e luto não se amarra bem ao terror, a condução confunde a geografia da casa e o CGI do clímax destoa da qualidade do restante.
Indicado para quem gosta de: Evil Dead (2013), A Morte do Demônio: A Ascensão, terror gore extremo, filmes de possessão com efeitos práticos e histórias sobre ciclos de abuso familiar.
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